- O parto Natural e humanizado de verdade - A maneira segura e emocionante de ajudar mulheres trazer crianças ao mundo

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Aventureiros

Esta semana uma homeopata amiga minha falou de parto domiciliar para uma gestante que queria desesperadamente um parto natural. Dizia que ela, apesar da aparência, era uma mulher forte e com o desejo verdadeiro de parir. Até que teve a resposta “Eu só quero um parto normal. Não sou uma aventureira...”.
Por que “aventureira”?
Nossas avós eram aventureiras?
Os profissionais que ajudam as mulheres a parir livres deste sistema ditador são “aventureiros”?
De fato, nossas avós não tinham o recurso tecnológico para ‘escolher”. Este recurso marketeiro de uma sociedade doente e sem fé.
Elas aceitavam a vida como ela viesse e tinham muito sucesso. Claro que as pessoas morriam. Sempre morreram e sempre morrerão, acredite. Mas a morte não era uma derrota e sabiam lidar melhor com isto.
Então veio a tecnologia com a promessa de diminuir a dor... Dor da perda, dor do nascimento e a dor da morte. E como mostram as series históricas, ficaram só na promessas e mesmo assim deslavadamente continuam a culpar a natureza perfeita da qual viemos, ou seja, Deus.
As mulheres “querem” parto normal, desde que com o aval da deusa tecné*. Rodeadas de excessos raramente bem indicados, se sentem “confiantes” para dar a luz. As máquinas, os jalecos e as agulhas lhes trazem mais segurança do que seu lar, do que a própria cama onde seu bebê foi gerado.
E não entendem porquê dá tudo errado...
Mesmo nunca conseguindo parir naturalmente como planejam, sequer desconfiam que foram enganadas. E caem no erro repetidas vezes.
É mais fácil acreditar na sua incapacidade do que na do profissional?
Às vezes me intriga: estas mulheres querem realmente parir ou simplesmente serem tuteladas? Será que não levamos a sério demais a história do príncipe encantado no cavalo – ou jaleco – branco, nos salvando do destino cruel, sendo felizes para sempre?
Ao ver todos os dias a história lamentável de cesárea por cordão enrolado no pescoço e não ter passagem se repetir, questiono se não é realmente de uma cesárea indicada pela psiquê que estas mulheres precisam.
Assisti uma gestante pelo SUS de 41 semanas que foi avaliada por diversos profissionais além de mim. Definitivamente estava em pródromos há alguns dias, não em trabalho de parto, longe de uma alto risco ou sofrimento fetal. Com um desconforto grande para ela, saiu da cidade e se submeteu a avaliação de um profissional que, pagando, indicou uma cesárea por “falta de passagem”. E agradeceu só seu salvador pela cirurgia devido ao cordão enrolado... Eu falei mil vezes no pré-natal que isto não era indicação e que falta de passagem sem trabalho de parto não existe. Pois quando ela escutou estas histórias pobres vindas de outro profissional que aceitou operá-la por dinheiro, “acreditou” facilmente... E agora tenho a certeza de que ela só escutou o que procurou muito ouvir.
Fiquei pessoalmente magoada, porque acreditei que ela queria parir. Infelizmente ainda não me acostumei. Mas desejo-lhe o melhor, apesar de não ter respondido á minha oferta de ajuda no aleitamento e já estar praticando amamentação cruzada, mesmo com o discurso de que queria amamentar. Desta vez não me surpreendi....
A humanização do nascimento não tem nada a ver com aventura. Claro que parir pode ser uma delicia, mas é também seguro. Ser operada jamais será. O parto humanizado não implica somente em ter filhos através da vagina, mas dar a possibilidade da mãe e do bebê viverem este momento da melhor forma possível, com respeito incondicional.
E respeitar é muito mais difícil do que parece. Ainda mais se houver um cérebro tecnocrático formado pela universidade do medo no comando.
Os humanistas são caçados como bruxas na inquisição, com a diferença de que agora a ciência está ao nosso lado. Quando tudo que fazemos é devolver à mulher seu direito inalienável de parir. Dar direito e poder significa acreditar, apoiar e libertar.
“Tenha seu filho onde e como quiser, mulher!”.
Não, não somos aventureiros. Somos muito responsáveis. Jamais faríamos um procedimento desnecessário ou usaríamos a tecnologia indiscriminadamente, porque é indiscutível que isto não traz qualidade alguma.
Se existe coerência, aventureiro seria quem coloca vidas em risco para preservar um feriado, por exemplo. Nem a tecnologia pode salvar quando a mãe-natureza é tão amaldiçoada e menosprezada. O advento da cesárea não diminuiu os casos de paralisia cerebral e aumentou os problemas respiratórios e mortes maternas/neonatais, entre outras morbidades. E a sociedade fecha os olhos a isto.
Misteriosamente esta verdade não esta no inconsciente coletivo, apesar das estatísticas repetitivas e escancaradas ano após ano, década após década.
Não existe aventureiro neste movimento. Existe paixão, existe sabedoria, existe amor; aventura, não.
Chagará o dia em que os absurdos serão a exceção. O dia em que para se formar, os profissionais terão que antes aprender a usar os instintos e a empatia antes de tudo. O dia em que as mulheres serão as donas, protagonistas e rainhas de seus partos e não mais aceitarão serem maltratadas e subjugadas.
Certamente não estaremos lá para ver, não nesta existência. Mas não há outro caminho para a evolução humana, senão o amor pleno e o respeito incondicional, desde o nas cimento até a inevitável morte.


* Nome dado carinhosamente à tecnologia pelo meu querido amigo obstetra com nome de cowboy.

2 comentários:

Ariana disse...

Excelente texto, vcs realmente são os pioneiros de uma mudança muito significativa no nosso pais. Parabéns!

Dydy disse...

Obrigada, Adriana. Nao é um trabalho facil. existe perseguição, existe rancor, existe ate agourou? Ja assistiu "Quem mexeu no meu queijo?" é por aí...
Mas a recompensa é prporcionalmente boa.

Um grande abraço

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