- O parto Natural e humanizado de verdade - A maneira segura e emocionante de ajudar mulheres trazer crianças ao mundo

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Dicas para Ter um Parto Legal

Amadureci as coisas que escreverei abaixo, pois quase ninguém entende o que quero dizer. São detalhes nos quais acredito, servem em vários aspectos de minha vida e, por final, acho muito egoísmo de minha parte, deixar de contar a vocês o que me ajudou e o que pode lhes ajudar a parir, por receio do que vão pensar.

Nada do que direi é cientifico. Não consta nos Guidlines nem na Cochraine nem é recomendação da OMS. São coisas que fui observando, escutando e ligando aos resultados que via. Não é um estudo randomizado nem conheço ninguém mais na humanização que pense exatamente como eu. Então não é uma orientação, é uma experiência que decidi compartilhar.

Acredito que parto tenha tudo a ver com sexualidade. Sexo é algo muito intimo, pessoal e cada um faz de um jeito. O parto também. Apenas pode parir, quem faz sexo, quem de alguma forma usa a vagina, grosseiramente falando.
Então deve ter alguma coisa a ver.

Não estou dizendo que quem goza terá parto natural e quem não goza terá parto difícil ou cesárea. Mas algo pode existir nesta direção e precisa ser aprofundado.
Deixar pra lá só porque não responde a todas, não é uma opção considerável.

Outro dia uma ex-cliente e amiga que sabe dessa minha busca pelas questões relacionadas a facilitação do trabalho de parto, teve um insight com uma palavra que achei bastante interessante: potência. O homem precisa ter potência sexual para ter relações sexuais, a mulher não necessariamente. Do ponto de vista biológico, a mulher pode ser completamente passiva numa relação, o homem heterossexual, não. Mas no momento do parto, uma mulher passiva demais, não consegue parir. Está aí uma grande razão para a dor. A dor faz reagir e a mulher precisa ser ativa no trabalho de parto.

Retornando ao ponto: a mulher usa objetivamente a mesma parte do corpo para o sexo e parto, mas no primeiro ela pode ou não ser ativa, no segundo, ela obrigatoriamente teria que ser.

Uma outra questão que considero relevante é a relação com o companheiro. Se a relação está com muitos problemas ou se a mulher não consegue se entregar completamente nesta relação, como ela entregará ao mundo e a este homem o presente que é um filho? Claro que ela provavelmente conseguirá parir se ninguém atrapalhar, mas acho que resolver este problema em algum nível pode ajudar no trabalho de parto.

O que pode estar prejudicando esta relação? Uma traição descoberta, sentimento de desvalorização, desprezo, brigas constantes, etc. Só mergulhando no universo dela de cabeça pra saber.

O tipo de parto do qual a gestante nasceu e a relação com a mãe também devem ser levadas em consideração. A gravidez é um momento de resolver pendências, pois todos estão mais sensibilizados. Mas antes de engravidar seria o ideal. Descobrir a circunstância na qual veio ao mundo não pode ser encarado como desimportante. Descobrir possíveis traumas causados pela violência no nascimento, afastamento da mãe, da não amamentação é fundamental para compreender e perdoar.

A postura dessa mulher diante da vida praticamente determina como será o parto, na minha opinião. No meu primeiro parto, estava muito menina e me vitimizava com a situação. Minha mãe estava lá e isso pode ter atrapalhado, no meu caso, porque ela me fazia ser ainda mais menina, quando eu precisava reagir, ser mulher pra colocar meu filho no mundo. No segundo parto, eu quis ser a mulher, a dona e, tirando que não deu tempo de ser na água, foi tudo igual ou melhor do que planejei. Eu não sou modelo indiscutível a seguir, mas olhando para trás na minha historia, consigo perceber com mais clareza a verdade das outras mulheres e me sinto mais segura e confiante para ajudá-las.

Meus partos foram tão diferentes um do outro porque eu estava muito diferente também. Em menos de 6 anos, eu me tornei outra pessoa, inclusive porque no primeiro parto eu não era mãe e no segundo já era. Antes eu era a menininha que chorava no Trabalho de parto e pedia cesárea, no segundo, eu fui a leoa que pediu pro companheiro dividir a dor com ela. Eu era mais eu, por isso, apesar de intenso, foi mais fácil.

Não poderia deixar de falar, apesar de não ser nenhum pouco unanimidade entre os ativistas que a conexão com a natureza, interna e externa são condições fundamentais para uma vida sexual legal e, portanto, um parto natural. Sabe, gostar de si, não desprezar suas funções biológicas, ser grata pela vida, cuidar da família e, de alguma forma, do planeta. Não quero dizer com isso que as mulheres urbanas e trabalhadoras não tenham chance. Mas não dá pra dizer que parto não tem nada a ver com cuidado e entrega.

E pela minha proximidade com partos de outras pessoas, posso confirmar e desconstruir minhas teorias sem medo e com a certeza de que me torno uma parteira melhor a cada dia. Sou muito grata a estas mulheres, pois a elas, mais do que aos livros e aos embates, devo tudo que sei.

É por elas que eu não desisto de descobrir o que posso fazer melhor. E claro... Para ajudar o mundo a ser bem melhor... Desde o nascimento.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O Que Você Realmente Deseja?

A maioria das mulheres com quem tenho um contato, digamos, obstétrico – seja no pré natal, num bate papo ou no parto – diz que prefere parto normal. Algumas vão alem: dizem que seus médicos terão que “fazer parto normal delas”, mesmo quando sabem que estes só fazem cesáreas. E outras mais conformadas acreditam que na hora vai acontecer alguma coisa e vai ser normal...

Desafortunadamente, em nosso país não adianta querer mais ou menos para conseguir ter um parto natural. Ou quer demais e faz o caminho de seu parto, ou se entrega à piedosa deusa Techné -  que diz silenciosamente “Fora de mim não há salvação” - e aceita sua cesárea como todo mundo faz.

O parto é um momento que vivemos duas, talvez três vezes em nossa vida moderninha. Seja por onde for que o bebê resolva ou seja obrigado a passar, estatisticamente dificilmente alguém vai morrer no processo. Mas esta experiência intensa não se tem de outra forma e há quem diga que isso não é tão importante assim. Há muito mais pessoas dispostas a deixar de vivê-la do que fazer um esforço realmente significativo para fazê-la acontecer.

Quando falamos em dinheiro então... Querem fazer parecer que este é um comércio pura e simplesmente. Insinuam que “perderíamos” dias, horas e anos escrevendo blogs, fazendo palestras gratuitas, acompanhando vários partos sem qualquer cobrança, respondendo frustrados perguntas de mulheres que sabemos que terão uma cesárea... Não que fosse pouco, mas não faríamos tudo isto, se o sustento fosse a única motivação.
Seria prejuízo viver a obstetrícia por dinheiro, quando o retorno, deste ponto de vista, as vezes é tão pequeno.

Desvalorizando nosso trabalho, conseguem desvalorizar quem somos. Porque, para estes, se tornou uma questão de mercado e nada mais.
Eu faço por paixão. Faço porque acredito.

Claro que há quem cobre mais ou menos por este trabalho. Em todos os tipos de trabalhos isso existe. E obviamente quem tem um serviço diferenciado e se dispõe a aguardar por pelo menos um mês um trabalho de parto que também é um comportamento profissional diferenciado, deve ter um pagamento justo. Mas todos estão dispostos a negociar. Isso é fato. Só que é mais fácil reclamar de ter que vender o carro pra pagar o parto do que conhecer outras realidades. Ou ainda, é melhor ficar no plano de saúde que tudo é “de graça e posso ter a mesma coisa”.
Quem dera.

Para “piorar” nossa situação, ainda temos o agravante de gostarmos de nossa profissão.
E isso é quase um crime! “Se fazem porque gostam, por que cobram?” Quando o sonho de todo mundo é trabalhar com o que gosta, nos acham maus porque gostamos!

Pouco importa a eles, se assistimos, de vez em sempre, partos de pessoas sem qualquer condição financeira e portanto, sem remuneração alguma.
Podemos fazer caridade para quem precisa, mas as vezes algumas pessoas não querem abrir mão de nada pelo seu parto. Como se nascer fosse menos importante do que ter coisas...
O enxoval está completo bem antes. E o quarto decorado. E o plano pago em dia. E todos detalhes que o bebê nem sabe que existem.

Ainda há quem diga, mesmo com condições, que não teve ou – pasmém – que não terá um parto humanizado porque não tem dinheiro. Sem sequer ter conversado com um profissional para avaliarem as possibilidades de pagamento, troca de trabalho ou qualquer alternativa digna para ambos os lados. Como se negociar fosse humilhante.
Ou seja, em muitos casos, a falta de dinheiro é o argumento fatal usado para não parir, já que no fundo sabemos que este é um passo muito importante.
Mas sempre me pergunto se é a verdade da pessoal naquele momento ou se é uma desculpa para nao ir adiante.

Só dá pra abrir mão quando conseguimos nos convencer de que é impossível.

Quantas e quantas vezes, me ofereci para conversar sobre parto com grávidas que sabiam que teriam uma cesárea pelo andar da carruagem. A maior parte nem vem. Outras, quando vem, vem quase que pedindo uma benção para continuarem exatamente como estão. Colocam a culpa nos cesaristas, mas eles só atendem o sistema no qual estão inseridos.
E tão poucas chegam até mim por quererem de fato um parto empoderador...

Parir acabou se tornando complicado, mas não impossível. Acredito muito que é a mulher que fará a revolução. A demanda cria o serviço. E se não for através dela, não imagino como será.

Não fiquem bravas comigo, barrigudas. Conheço exceções à regra.
Simplesmente perguntem a si mesmas seus porquês.

O que posso dizer é que jamais negaria acompanhamento a uma mulher que realmente desejasse. E mesmo assim, as que querem dão um jeito.
E acho difícil que alguém nao consiga ter um parto somente pelo motivo financeiro.
Mas quem realmente deseja parir?
Quem realmente precisa de um parto natural?

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Sobreviver é tudo?

O parto humano é um dos maiores exercícios de paciência e até de tolerância que podemos ter na vida.

Arrumar desculpa para operar uma mulher grávida que só quer um parto normal, é muito fácil. Afinal as pessoas confiam muito nos profissionais e não vão discutir esta necessidade, ainda mais em partos tradicionais que são muito sofridos.

Mas explicar a necessidade de uma cesárea a uma mulher consciente e informada, que deseja de verdade um parto natural, é um desafio. Porque infelizmente, existem situações onde ate mesmo a nossa vilã, cesárea, é necessária.

A primeira talvez ainda não conheça seu poder e por isso agradecerá pela cirurgia que, cientificamente, dificilmente terá lhe salvado de fato a vida e a de seu filho como gostaríamos de acreditar.

A segunda terá seu luto por ter sido privada de algo tão importante. Um triste ritual que faz parte de sua busca e de seu auto-conhecimento. É uma dor solitária, porem que podemos ajudar a cicatrizar. Sempre compreendendo que esta cicatrização será mais demorada do que a cicatrização da cirurgia.

Lidar com ambas as situações é complicado demais para os profissionais quem possuem estes valores. E também temos que encontrar nossas respostas, nos curar de nossos lutos.

Não ficamos felizes ao indicar uma cesárea ou uma remoção de um parto que seria domiciliar. Mas isto não se sobrepõe às complicações que podemos “prever”.

Ao contrário do que dizem os membros da matrix obstétrica, infelizmente ainda indicamos mais cesáreas do que as diretrizes cientificas orientam. Porque não somos de ferro. Já seria alguma coisa não indicar cesariana por comodidade ou falsos argumentos, mas isso também não basta.
Deve existir uma razão muito, muito forte para tirar o parto de uma mulher.

Com o tempo, vamos nos aperfeiçoando e “pegando o feeling”, mas jamais acharemos que está tudo bem só porque todos sobreviveram.
Sobrevivência é o mínimo que podemos dar a uma mulher em trabalho de parto e seu filho. Não é o melhor, é o básico.

domingo, 16 de maio de 2010

Deixar de Criticar Cesárea é a Solução?

Realmente algumas mulheres precisam de cesárea e não quase todas que eu conheço.

Não posso deixar de falar dos malefícios da cirurgia cesariana, só porque 10%, no máximo, de todas as mulheres podem de fato precisar.

Se hoje existe uma campanha pela desmoralização da cesárea desnecessária, ela fez por onde para merecer.

Ninguém perderia seu tempo falando mal de cesariana se ela, na prática estivesse fazendo simplesmente seu papel que é reconhecidamente sagrado: salvar vidas.

O problema é que a cesárea quando desnecessária ou mal indicada pode matar mais, adoecer mais e lesar mais do que a integridade física. Isso não é menos importante só porque ninguém liga para mais nada senão para seus preconceitos ultrapassados.

Vivemos em um tempo onde os conceitos não têm qualquer independência, apenas se adaptam ao que nos convém desde que sejam ditos de maneira adequada (tipo a melô do acomodado “O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído...”).

Então a mulher que desejar muito um parto natural e por ventura passar por uma cesárea, necessária ou não, terá que viver sua dor, “exorcizá-la”, para depois renascer ainda mais forte. A dor desta mulher é dela e o máximo que podemos fazer, depois que já aconteceu, é apoiá-la se ela quiser. Mas de fato, toda dor é grande e solitária.

Não é correto fingir que a cesárea desnecessária não é uma grande catástrofe para a saúde materno-infantil e para toda a sociedade.

Na verdade, é a deturpação da necessidade desta cirurgia que devia estar em cheque, não as criticas a ela.

A mulher que não viveu plenamente esse momento biológico e espiritual que é o parto tem o direito de saber a verdade, de criticar consciente o acontecimento, de despertar. Ela e seu filho sobreviveram, mas ela perdeu algo que lhe é muito importante e isto precisa ser respeitado.

O tempo trará conforto, mas só a verdade curará a ferida.

Então pro favor, não diga que isso não é importante e não peça para não dizerem que está tudo bem. A cesárea desnecessária merece a critica que a ela é feita, mas concordo que o parto natural deva ser muito mais exaltado do que ela.

Lutamos pela humanização do nascimento, mas sabemos que as vezes as coisas não são como planejamos. E para estas pessoas, temos que nos doar mais ainda como profissionais... Sendo meio terapeuta, sendo meio psicólogo, sendo totalmente amigo.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Aguardar Trabalhos de Parto

Eileithya - A Deusa do Parto

No momento, me encontro esperando para participar de meu primeiro Parto Domiciliar, além dos meus dois, claro! Depois de vários partos hospitalares finalmente este está chegando.

Esperar um parto de uma mulher é também esperar o próprio parto.

Quando acompanho uma gestante que realmente quer viver seu parto, eu engravido também. Não sei explicar, só gosto que seja assim.
Mas nada como acompanhar uma mulher que acredita em si.

Estou aqui para ajudar qualquer uma que queira tentar, mas duas coisas me emocionam demais: uma mulher que confia piamente em si e a mulher que nasce, que se descobre em seu parto.

Talvez para quem olhe de longe, acompanhar parto de mulheres de baixo risco (vulgo “Filezão” na obstetrícia) seja fácil e nada desafiador. Mesmo assim há poucos que decidem sair da teoria e fazer, o que prova que a crença de é fácil é uma mentira. Os profissionais têm pânico de assistir PDs simplesmente porque não sabem, têm muito medo e também porque não querem ter o trabalho de aprender.

Ou seja, falar que é fácil é fácil!

Mas o grande lance de ser assistente de partos naturais é se dispor a aguardar, abrir mão de feriados, reconhecer o que é natural, o que foge ao fisiológico, saber o limite, enfim sentir, esperar saber e fazer...

O mérito estar em viver de fazer o bem. Ter salário vindo de boas vindas aos bebês, de mulheres extasiadas e pais sem palavras. Não há melhor profissão no mundo!

Às vezes me sinto egoísta por ser tão apaixonada por partos. Afinal faço isso por mim também. Me sinto bem, revivo as minhas próprias experiências, tomo emprestadas as emoções de outras mulheres, ajudo a construir um mundo melhor para mim e para os meus filhos.
Quero dizer que não faço isso somente por altruísmo.

Existem momentos, onde eu gostaria de não ser tão apaixonada, porque sofro pessoalmente quando não dá certo, porque me envolvo demais, porque parto é coisa séria e deliciosa demais pra mim.

Mas sou assim, pois simplesmente não há outra saída. Não há mérito nem demérito. Simplesmente nada mais me satisfaz tanto. Nenhum outro trabalho me traz o que este me traz. Nada mais me envolve, realiza e me faz tão feliz.

Quando eu assisto um parto não faço por caridade, não faço só pela mulher, mas também não faço só pior mim. Eu faço por um mundo melhor que acredito virá através das crianças que vem ao mundo através das minhas mãos.

É um trabalho difícil, porém também digno, importante e belo. Um sacerdócio que não deixa oportunidade de escolha para seus devotos por ser tão sedutoramente simples.

sábado, 17 de abril de 2010

O Nascimento é Só um Detalhe...


Quantas vezes escutamos... “O que importa é que mãe e bebê passam bem”
Uma frase clássica da medicina da guerra, onde sempre se espera o pior. Afinal, tudo pode acontecer num parto ou numa cesariana. Se mãe e bebê estiverem vivos, já está de bom tamanho.

A questão é que na grande maioria das vezes, a mãe e o bebê vão mesmo sobreviver. Sobreviveriam de qualquer forma, mas como não temos como prever é coerente ter a segurança da presença de um profissional que acredite naquela mulher e que seja um bom observador para o caso de necessidade de intervenção.

Outra máxima apregoada por inúmeras pessoas que nasceram ou tiveram seus filhos nascidos por cesárea é “O nascimento não é o que mais conta na personalidade de uma criança, mas sim a criação”.

Ora, nenhum humanista jamais disse ou dirá que é só parir naturalmente para garantir a integridade da humanidade e a paz mundial.

Mas obviamente, a família que se preocupa em como seu filho virá ao mundo, mesmo que seja exatamente o contrário do que a maioria está acostumada a ver, pensa também em como vai alimentá-lo, educá-lo e amá-lo.

As coisas não são, ou pelo menos não deveriam ser, tão desconectadas umas das outras, tão nada a ver com seu contexto.

Parir em casa ou em outro ambiente realmente agradável, seguro e tranqüilo é “apenas” uma das primeiras grandes demonstrações de que os pais vão começar a fazer as coisas da melhor forma possível.

Uma grande forma de dizer “Nós vamos te respeitar desde agora, quando você ainda nem pode decidir por si”.

Eles vão errar, acertar, ficar em cima do muro... Mas o primeiro e mais corajoso passo terão dado. E isto dará força para que continuem encarando o dia a dia, as outras grandes decisões, as doenças e as dificuldades de maneira sóbria, forte e sábia.
Porque ser mãe e pai de verdade não é nada fácil.

Eu mesma queria muito ter nascido numa família assim...
Mas como não pude, resolvi ser a família mais perfeita do mundo...
Desde a primeira inspiração deles... Até a última.

E, por favor, não venham com papo de “mais e menos mãe”, porque esta nunca foi a questão central desta discussão.

Parir naturalmente, de fato, não é tudo.
Mas é um excelente começo...

terça-feira, 30 de março de 2010

Exames Demais


Além das evidencias cientificas indicando os exames de rotina a serem realizados e os exames de investigação em casos suspeitos para uma patologia durante o pré-natal, existem profissionais que saem pedindo todos os exames dos quais se recordam, que poderiam ter alguma valia na gestação, mesmo que seja 1/10.000.000 e mesmo que nenhuma intervenção seja indicada ou possível.

Pedir um exame só por pedir, além de não ser racional, torna o sistema dispendioso, tecnocrático e indireto. Infelizmente os exames, em muitos casos, são pedidos sem sequer um exame físico que o indique ou mesmo descarte sua possibilidade.

Há exames valiosíssimos para ajudar a diagnosticar máformações, mas infelizmente muitos dos solicitados são feitos para satisfazer curiosidade e conferir segurança sobre uma insegurança infundada, não científica e de um cliente não examinado clinicamente.

É um hábito nos pré-natais particulares ou de planos de saúde brasileiros solicitarem uma USG por consulta, as vezes mais.

USG com Doppler de rotina, inclusive para baixo risco, virou uma febre. O que se pesquisa em uma gestante sem qualquer complicação com uma Doppler? Incisura? Suprimento para o feto? Pedância? Ou uma justificativa para a futura cesárea?

Exames demais afastam profissional e cliente e jamais substituirão uma boa anamnese e exame físico, coisa hoje em dia bastante desvalorizada.

E há o outro lado. Muitas grávidas confundem “falta de exames” com negligência. Ou seja, se há quem goste de passar muitos exames, há também quem goste de fazê-los.

Temos plano de saúde para ficarmos doentes em paz.
Temos remédios para não termos que lidar com o mínimo de dor.
Temos os profissionais que merecemos.
Temos o sistema que queremos.

Dizem “Melhor pecar por excesso!”, mas pecar por excesso na prática é tão grave quanto pecar por falta.

Claro que mulheres e profissionais para se defender desta postura, afirmarão que não sei o que estou dizendo, que esta é uma recusa fatal da tecnologia e que é mais uma loucura natureza. Mas minha advertência é contra o excesso apenas.

Quem faz o necessário e indica quando é racional, se sinta acolhido neste texto.

Hoje temos muito mais recurso do que há 100 anos... Mas o que temos feito com eles se os resultados perinatais não são tão bons quanto se esperava, mesmo com o excesso de tecnologia?

Não lhe parece que a teoria de que é melhor pecar por excesso não têm dado certo?
Não lhe parece simplista demais pedir e fazer exames sem saber o que procurar?
Cuidado e medo são coisas completamente diferentes.

sábado, 20 de março de 2010

Medo


Eu costumava ser bastante corajosa diante de qualquer parto.

Não sei se por inocência ou se por princípio, mas o fato é que eu não sabia o que era o medo.
Acreditava que se eu havia parido, em casa, com parteira, mesmo sem saber nada sobre parto humanizado, então qualquer mulher também poderia.
Afinal, tenho todos os argumentos...
Simples assim.

Desde então, vi muitas coisas acontecerem. Coisas boas e coisas não tão boas. E algumas delas, de alguma forma, me desencorajaram.

Poderia dizer que não tenho medo de nada, que não temo VBA3C, que pego o que aparecer, que meu limite é a vitalidade do bebê, a vontade da mulher e nada mais.
É obvio que tudo isso me fará tomar decisões, mas quero dizer agora que não apenas isso.

Preciso assumir que tenho um limite sim e que ele, as vezes, não é cientifico.
Que tenho instintos, que vou usar meus sentidos. Do sexto ao milionésimo sentido para saber se posso esperar um pouco mais.

Deus sabe o quanto é difícil e doloroso assumir isto, mas tenho que dizer: dentro de minha ainda grande coragem, existe medo.

Sei que não faço partos, no máximo ajudo – quem faz é a mulher -, mas nossa sociedade não perdoa seus desertores e anseia por um erro ou por uma fatalidade para rotular de erro e apontar seu dedo sujo.

Não importa que tantos erros aconteçam diariamente em toda parte deste país, mas quando houver o que falar de uma enfermeira obstetra ou de um profissional que acompanhou um PD, será uma oportunidade “indisperdiçãvel”...

Alguns me diriam para partir para outra então. Se não tenho coragem de assumir tudo completamente, seria melhor não assistir nada ou até mesmo, passar a acompanhar cesáreas de rotina.

A taxa de partos normais assistidos por mim ou ocorridos na minha presença ainda é alta, mas talvez pudesse ser maior. Sempre poderia.

Apenas não tenho conseguido viver com uma realidade de tanta pressão, como se ela não existisse, como se não me afetasse nem um pouco.
Não queria estar confessando isto, mas queria ainda menos ter que sentir.

Esta “confissão” é o tipo que os extremistas da humanização precisam para diminuir um trabalho bonito e movido à paixão. E talvez os cesaristas ou simpatizantes da cesária se compadeçam e pensem “Tudo bem, afinal mesmo assim você ajuda gente demais”... Nada disso me satisfaz.

Mas nem um nem outro entendeu é que nem o medo me engoliu e nem sou um poço de coragem. Essa é a minha história e ela tem suas tortuosidades ao longo do caminho.
E este não é o final.

Sei que faz parte da minha construção. Preciso lidar muito bem com os medos para então ter a coragem necessária para fazer este trabalho, esta missão pela qual fui escolhida e aceitei sem hesitação...
... Ajudar a fazer um mundo de paz através e desde o nascimento.

domingo, 14 de março de 2010

Gestantes Estimulantes

Não existe nada mais excitante na obstetrícia do que uma gestante empoderada e de baixo risco diz:

- Eu quero parir com você.
- Eu vou parir com ou sem você, mas gostaria que você fizesse parte disso.
- Se você não puder me ajudar, vou parir sozinha.

Essas são falas de mulheres muito donas de si, decididas e que têm as rédeas de seu destino. Não aguardam as mazelas e os caprichos da vida, não estão aqui a passeio.

Uma mulher com este perfil nos desafia profissionalmente. Mexe com a parteira que mora em nós e torna a proposta irresistível.

É uma pena que o mundo todo não comungue dessa opinião e dessa humanização, tornando a referencia, quando necessária, muito mais dolorosa do que naturalmente já é.

Além da questão clínica, o limite da segurança num parto é a mulher. E uma mulher consciente e determinada é o sonho de qualquer profissional humanizado, ensivel e coerente.

É quase um afrodisíaco a este trabalho, um antagônico ao veneno do medo que vive em algum lugar do coração de todos que acreditam na natureza, mas que mora beste sistema cruel que não perdoa seus desertores.

Mesmo que sigamos a ciência. Isso pouco importa no momento de crítica.

Tomara que mulheres assim sempre cheguem até mim. Pois esta confiança é sentimento básico que precisamos ter para continuar ajudando mulheres a se sentirem bem e para seus bebês nascerem em segurança e paz.

quinta-feira, 4 de março de 2010

As Conseqüências do Magnífico Parto da Gisele...

De repente o fato da Gisele Bundchen ter parido em casa não apenas tirou o nascimento natural da condição de clandestino e selvagem, mas o promoveu, dando-lhe um status jamais imaginado.

Talvez depois disso, alguma mulher desmarque sua cesárea ou mude de profissional ao perceber que não terá o parto que deseja com ele. Talvez a mulher tenha então a chance de compreender que seu parto poderia – e deveria – ser simples, mas no atual sistema é quase impossível. Que ela não pense mais que será o 1% que conseguirá parir devido a sua freqüência vibratória dentro de uma maternidade particular. E que, se deixar as coisas acontecerem, vai virar estatística e ser mais uma a explicar sua cesárea com ares de exceção à regra da natureza, sua “experiência de quase morte”...

Mas com o relato consciente de Gisele afirmando com cara de mãe dedicada que colocou seu filho no mundo ao lado de sua mãe, seu amor e sua parteira... Foi o evento público que mais expôs a opinião e o sentimento materno – geralmente deixado de lado. E em dimensão nacional, deu um bom tom, talvez até um status, ao parto natural, tão maltratado na teoria e na prática de nossa sociedade.

Claro que sempre haverão os preconceituosos, os corporativistas ou pessoas que não fazem questão alguma de ler trabalhos atualizados para constatar as evidências científicas Nunca espere unanimidade quando a vaidade e o novo estiverem em questão.

O grande lance é esta informação chegar à mulher comum que concebe, que gesta seres humanos e que precisa saber que cesariana não é brincadeira nem é inócuo, e que o parto natural é uma excelente alternativa. Diferente, mas não mais perigosa.

E depois da Gisele não duvide de mais nada, quem sabe até uma forma de nascer muito glamurosa.

Eles já me visitaram